Hoje estou em mais um dia de
loucura. Esse sentimento caminha paralelamente a minha vida normal, e às vezes,
consegue abrir um espaço pelo qual entra e me deixa louca. Isso acontece desde
a minha adolescência. Agora está chovendo, é de tarde, acabei de acordar de
sono de sonhos estranhos, onde eu era apaixonada por um estranho. Não gosto
desses sonhos. Acorda-se apaixonada por uma pessoa que não existe. Ou pelo
menos você ainda não conhece. Se sente amor nos sonhos. Tenho sonhos assim
desde criança, costumava ficar dias apaixonada, hoje não mais. Apenas sinto
raiva por ter acordado e não sentir mais o amor. Está frio, quero sair para
comprar vinho e cigarros. O que me impede? Não, não é a chuva. Se eu for, é
como se eu estivesse dizendo sim à loucura. Mas eu quero ir.
Sou acostumada com a solidão
desde sempre. O Raio de Sol e o Barulho da Chuva são meus companheiros, estão
sempre me cercando, ou durante o dia, ou durante a noite. Hoje, quem está
comigo é o meu amigo Barulho da Chuva. Ele estava aqui quando acordei, e me
chamou para sair, disse que era hora de ir logo, antes que o bar feche. Disse
que ia comigo.
Raio de Sol quis me fazer uma
pequena visita hoje, mas não quis vê-lo, preferi ficar trancada no meu quarto.
Não que eu goste mais do Barulho da Chuva, mas é que ele me entende mais nesses
dias. Coloquei uma calça jeans, uma blusa de frio por cima da blusa branca,
peguei minha sombrinha vermelha e sai. Cada gotícula de brisa da chuva
penetrava em mim como gotas de loucura, me sentia completamente louca, e gostei
daquilo.
Voltei. Na verdade, quando
escrevi essas últimas linhas, ainda não tinha ido, e fui mesmo só porque as
escrevi. Mas fiz exatamente o que aí está descrito, coloquei uma calça jeans,
uma blusa de frio por cima da blusa branca, peguei minha sombrinha vermelha e
sai. Também coloquei um tênis. Barulho da Chuva, como havia me prometido, foi o
voltou comigo, silenciosamente, e me deixou na porta de casa. Gosto dele porque
o silêncio não nos deixa constrangidos. Na verdade, quando saí, não foi loucura
o que senti, e sim, liberdade. Talvez a loucura na prática seja liberdade.
Senti que podia fazer tudo que quisesse, me senti bem por poder andar e fazer
escolhas. E fiz algumas escolhas: comprei o vinho mais barato e três
Hollywoods. Agora estou de volta ao meu quarto, com vinho, cigarros e
escrevendo. Falta algo? Absolutamente não. A solidão nunca me caiu tão bem.
Tomo o vinho na garrafa mesmo e
acendo o primeiro cigarro. E nesses momentos raros e preciosos, meus problemas
somem. Nada como um gole de vinho e uma tragada.
Meus momentos de loucura são
febris. Uma febre que vem, queima, queima, me consome e vai embora. Vomito
palavras e me sinto curada de alguma doença que tenho em mim. A cabeça que
antes estava pesada vai ficando mais leve, mais leve, até não sobrar nada, nem
um pensamento. Continuo bebendo, acendo o segundo cigarro e escuto algumas
músicas.
Meu quarto? Ah, meu quarto. Tem
um colchão no chão, vinho, bitucas e roupas sujas, que ainda usarei. Canto e
assobio, a vida nunca foi tão bela e sinto a felicidade dos loucos, curta e
intensa.
Acendo o terceiro e último
cigarro, e juntamente com a fumaça, sinto a loucura se esvaindo do meu corpo.
Ela se vai, deixando dúvidas e certezas, mas a maior certeza de todas é saber
que ela voltará.
27/07/2013