quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Madwoman

Hoje estou em mais um dia de loucura. Esse sentimento caminha paralelamente a minha vida normal, e às vezes, consegue abrir um espaço pelo qual entra e me deixa louca. Isso acontece desde a minha adolescência. Agora está chovendo, é de tarde, acabei de acordar de sono de sonhos estranhos, onde eu era apaixonada por um estranho. Não gosto desses sonhos. Acorda-se apaixonada por uma pessoa que não existe. Ou pelo menos você ainda não conhece. Se sente amor nos sonhos. Tenho sonhos assim desde criança, costumava ficar dias apaixonada, hoje não mais. Apenas sinto raiva por ter acordado e não sentir mais o amor. Está frio, quero sair para comprar vinho e cigarros. O que me impede? Não, não é a chuva. Se eu for, é como se eu estivesse dizendo sim à loucura. Mas eu quero ir.

Sou acostumada com a solidão desde sempre. O Raio de Sol e o Barulho da Chuva são meus companheiros, estão sempre me cercando, ou durante o dia, ou durante a noite. Hoje, quem está comigo é o meu amigo Barulho da Chuva. Ele estava aqui quando acordei, e me chamou para sair, disse que era hora de ir logo, antes que o bar feche. Disse que ia comigo.
Raio de Sol quis me fazer uma pequena visita hoje, mas não quis vê-lo, preferi ficar trancada no meu quarto. Não que eu goste mais do Barulho da Chuva, mas é que ele me entende mais nesses dias. Coloquei uma calça jeans, uma blusa de frio por cima da blusa branca, peguei minha sombrinha vermelha e sai. Cada gotícula de brisa da chuva penetrava em mim como gotas de loucura, me sentia completamente louca, e gostei daquilo.

Voltei. Na verdade, quando escrevi essas últimas linhas, ainda não tinha ido, e fui mesmo só porque as escrevi. Mas fiz exatamente o que aí está descrito, coloquei uma calça jeans, uma blusa de frio por cima da blusa branca, peguei minha sombrinha vermelha e sai. Também coloquei um tênis. Barulho da Chuva, como havia me prometido, foi o voltou comigo, silenciosamente, e me deixou na porta de casa. Gosto dele porque o silêncio não nos deixa constrangidos. Na verdade, quando saí, não foi loucura o que senti, e sim, liberdade. Talvez a loucura na prática seja liberdade. Senti que podia fazer tudo que quisesse, me senti bem por poder andar e fazer escolhas. E fiz algumas escolhas: comprei o vinho mais barato e três Hollywoods. Agora estou de volta ao meu quarto, com vinho, cigarros e escrevendo. Falta algo? Absolutamente não. A solidão nunca me caiu tão bem.

Tomo o vinho na garrafa mesmo e acendo o primeiro cigarro. E nesses momentos raros e preciosos, meus problemas somem. Nada como um gole de vinho e uma tragada.
Meus momentos de loucura são febris. Uma febre que vem, queima, queima, me consome e vai embora. Vomito palavras e me sinto curada de alguma doença que tenho em mim. A cabeça que antes estava pesada vai ficando mais leve, mais leve, até não sobrar nada, nem um pensamento. Continuo bebendo, acendo o segundo cigarro e escuto algumas músicas.
Meu quarto? Ah, meu quarto. Tem um colchão no chão, vinho, bitucas e roupas sujas, que ainda usarei. Canto e assobio, a vida nunca foi tão bela e sinto a felicidade dos loucos, curta e intensa.

Acendo o terceiro e último cigarro, e juntamente com a fumaça, sinto a loucura se esvaindo do meu corpo. Ela se vai, deixando dúvidas e certezas, mas a maior certeza de todas é saber que ela voltará.

27/07/2013 

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Ácido


Minhas costelas se contorciam contra a sua barriga,

sua língua dura perfurava minha boca,

engolindo doses cavalares de saliva goela adentro.

Minhas mãos cegas buscavam com

tanta ânsia enxergar o teu corpo que

se perdiam dentro das tuas entranhas.

Cravadas minhas unhas no teu glúteo

sentia sua pulsação pela ponta dos meus dedos,

te forçando para dentro de mim, enquanto

você me corroia como ácido.

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Fragmentos.

Há muito tempo, pedacinhos de mim foram empacotados e jogados no fundo de um baú da despensa da casa da minha avó. Reencontrá-los foi uma surpresa.
- Há quanto tempo, velhos amigos! – exclamei com excitação e nostalgia.
- Como você cresceu, pequena!– respondeu o conjunto de cacos que costumava ser o meu tesouro. 


- Cresci, conheci o mundo e aqui estou. – olhava-os e percebi que ainda conhecia cada detalhe de cada objeto que estava ali. Eu sabia que, se quisesse, poderia arrumar aquela bagunça, saberia onde cada peça se encaixava, porque aquilo era meu, era eu! É o meu passado. Ficou guardado e continuará guardado, mas se eu quiser recorrer a ele, sei que estará lá: no fundo do baú da despensa, no fundo do meu consciente. Sei que estará.


- Aqui nos lembramos de você todos os dias! Que felicidade você nos proporcionava... Nos tratava com tanto carinho, zelo e dedicação! Espero que esteja tratando os humanos assim também! Precisamos ser paciente com eles.
- Os humanos – ao contrário de vocês, que sempre me fizeram feliz – me desapontam muito. Nunca estão satisfeitos com nada e é muito difícil ser paciente com eles. Mas é um sentimento que tento lapidar todos os dias. Vocês não imaginam como foi difícil deixar vocês para trás e encarar a vida de adulto... às vezes, tudo que eu quero é esparramá-los na sala de jantar sobre o tapete e brincar até minha mãe me mandar dormir.


- A vida é assim, Lola. Passageira. Você tem que abrir mão de algumas coisas para conseguir outras. Não se pode ter tudo. Você teve que passar por tudo isso para chegar onde está. E não pode desistir nunca, você tem muita coisa para viver, muitas outras recordações para guardar. Você ainda encherá muitos outros baús durante a sua vida. Alguns serão pesados de carregar, será dolorido conviver com eles, ter que abri-los às vezes causará muita dor; mas também terá baús, como esse onde estou: cheios de alegria e lembranças de momentos felizes. Não se pode ignorar, nem deixar nenhum baú desses para trás, eles que te erguem, te que sustentam como pessoa, são o seu caráter, a sua essência. Fazem ser o que você é.
Fiquei parada por alguns segundos e refleti sobre essas palavras. E percebi que, para mim, elas faziam sentido.


- Sim, houve momentos em que pensei que não conseguiria aguentar o peso dos meus baús, mas estava enganada. Tenho orgulho de cada um de vocês, saibam disso. Mas agora, preciso fechá-lo e correr atrás do que me aguarda!
O conjunto de cacos assentiu de forma maternal e senti uma sensação de alivio e vivacidade ao mesmo tempo.
Quando estava fechando o baú, escutei um pequeno pedaço de caco dizer mais para si do que para os outros:
- Ela ainda tem o mesmo brilho nos olhos...