Há muito tempo, pedacinhos de mim foram empacotados e
jogados no fundo de um baú da despensa da casa da minha avó. Reencontrá-los foi
uma surpresa.
- Há quanto tempo, velhos amigos! – exclamei com excitação e nostalgia.
- Como você cresceu, pequena!– respondeu o conjunto de cacos que costumava ser o meu tesouro.
- Cresci, conheci o mundo e aqui estou. – olhava-os e percebi que ainda conhecia cada detalhe de cada objeto que estava ali. Eu sabia que, se quisesse, poderia arrumar aquela bagunça, saberia onde cada peça se encaixava, porque aquilo era meu, era eu! É o meu passado. Ficou guardado e continuará guardado, mas se eu quiser recorrer a ele, sei que estará lá: no fundo do baú da despensa, no fundo do meu consciente. Sei que estará.
- Aqui nos lembramos de você todos os dias! Que felicidade você nos proporcionava... Nos tratava com tanto carinho, zelo e dedicação! Espero que esteja tratando os humanos assim também! Precisamos ser paciente com eles.
- Os humanos – ao contrário de vocês, que sempre me fizeram feliz – me desapontam muito. Nunca estão satisfeitos com nada e é muito difícil ser paciente com eles. Mas é um sentimento que tento lapidar todos os dias. Vocês não imaginam como foi difícil deixar vocês para trás e encarar a vida de adulto... às vezes, tudo que eu quero é esparramá-los na sala de jantar sobre o tapete e brincar até minha mãe me mandar dormir.
- A vida é assim, Lola. Passageira. Você tem que abrir mão de algumas coisas para conseguir outras. Não se pode ter tudo. Você teve que passar por tudo isso para chegar onde está. E não pode desistir nunca, você tem muita coisa para viver, muitas outras recordações para guardar. Você ainda encherá muitos outros baús durante a sua vida. Alguns serão pesados de carregar, será dolorido conviver com eles, ter que abri-los às vezes causará muita dor; mas também terá baús, como esse onde estou: cheios de alegria e lembranças de momentos felizes. Não se pode ignorar, nem deixar nenhum baú desses para trás, eles que te erguem, te que sustentam como pessoa, são o seu caráter, a sua essência. Fazem ser o que você é.
Fiquei parada por alguns segundos e refleti sobre essas palavras. E percebi que, para mim, elas faziam sentido.
- Sim, houve momentos em que pensei que não conseguiria aguentar o peso dos meus baús, mas estava enganada. Tenho orgulho de cada um de vocês, saibam disso. Mas agora, preciso fechá-lo e correr atrás do que me aguarda!
O conjunto de cacos assentiu de forma maternal e senti uma sensação de alivio e vivacidade ao mesmo tempo.
Quando estava fechando o baú, escutei um pequeno pedaço de caco dizer mais para si do que para os outros:
- Ela ainda tem o mesmo brilho nos olhos...
- Há quanto tempo, velhos amigos! – exclamei com excitação e nostalgia.
- Como você cresceu, pequena!– respondeu o conjunto de cacos que costumava ser o meu tesouro.
- Cresci, conheci o mundo e aqui estou. – olhava-os e percebi que ainda conhecia cada detalhe de cada objeto que estava ali. Eu sabia que, se quisesse, poderia arrumar aquela bagunça, saberia onde cada peça se encaixava, porque aquilo era meu, era eu! É o meu passado. Ficou guardado e continuará guardado, mas se eu quiser recorrer a ele, sei que estará lá: no fundo do baú da despensa, no fundo do meu consciente. Sei que estará.
- Aqui nos lembramos de você todos os dias! Que felicidade você nos proporcionava... Nos tratava com tanto carinho, zelo e dedicação! Espero que esteja tratando os humanos assim também! Precisamos ser paciente com eles.
- Os humanos – ao contrário de vocês, que sempre me fizeram feliz – me desapontam muito. Nunca estão satisfeitos com nada e é muito difícil ser paciente com eles. Mas é um sentimento que tento lapidar todos os dias. Vocês não imaginam como foi difícil deixar vocês para trás e encarar a vida de adulto... às vezes, tudo que eu quero é esparramá-los na sala de jantar sobre o tapete e brincar até minha mãe me mandar dormir.
- A vida é assim, Lola. Passageira. Você tem que abrir mão de algumas coisas para conseguir outras. Não se pode ter tudo. Você teve que passar por tudo isso para chegar onde está. E não pode desistir nunca, você tem muita coisa para viver, muitas outras recordações para guardar. Você ainda encherá muitos outros baús durante a sua vida. Alguns serão pesados de carregar, será dolorido conviver com eles, ter que abri-los às vezes causará muita dor; mas também terá baús, como esse onde estou: cheios de alegria e lembranças de momentos felizes. Não se pode ignorar, nem deixar nenhum baú desses para trás, eles que te erguem, te que sustentam como pessoa, são o seu caráter, a sua essência. Fazem ser o que você é.
Fiquei parada por alguns segundos e refleti sobre essas palavras. E percebi que, para mim, elas faziam sentido.
- Sim, houve momentos em que pensei que não conseguiria aguentar o peso dos meus baús, mas estava enganada. Tenho orgulho de cada um de vocês, saibam disso. Mas agora, preciso fechá-lo e correr atrás do que me aguarda!
O conjunto de cacos assentiu de forma maternal e senti uma sensação de alivio e vivacidade ao mesmo tempo.
Quando estava fechando o baú, escutei um pequeno pedaço de caco dizer mais para si do que para os outros:
- Ela ainda tem o mesmo brilho nos olhos...
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